Existem a Polinésia, a Indonésia e, pouca gente sabe, a Amnésia, um pequeno arquipélago no Pacífico cuja principal indústria é a fitinha para amarrar no dedo e lembrar o que não se quer esquecer, que os amnesianos costumam usar nos 10 dedos da mão, inutilmente, pois nunca se lembram por que estão usando. Quem acha que o Brasil é o país mais sem memória do mundo não conhece a Amnésia, que inclusive se classificou para as finais da última Copa do Mundo mas esqueceu de ir, ao contrário do Brasil, que foi mas esqueceu o futebol.

A profissão mais valorizada na Amnésia é a de historiador-romancista. Como ninguém se lembra de nada por mais de 15 minutos, os historiadores inventaram uma história grandiosa para o país que inclui até uma guerra contra os Estados Unidos, que ganharam, vários reis malucos e ditadores divertidos e heróis nacionais como o inventor do spray nasal e um amante da Rita Hayworth, além de muitos recordistas olímpicos e cinco vitórias na Copa do Mundo. A capital de Amnésia, cujo nome ninguém se lembra, tem dezenas de estátuas e monumentos homenageando atletas, generais, cientistas e filósofos que nunca existiram mas estão nos livros de história.

Segundo os historiadores, Amnésia já construiu sua bomba atômica, só esqueceu onde a botou.

Amnésia também é conhecida como exportadora de garçons. Quase todos os imigrantes de Amnésia que você encontra no mundo são garçons. É fácil reconhecê-los porque são os que esquecem o seu pedido. Em Amnésia isto não era um problema porque quem pedia sempre esquecia o que tinha pedido e aceitava o que o garçom trouxesse, mas em outros países garçons amnesianos têm ouvido alguns desaforos. Que logo esquecem.

Em Amnésia não há adultério. Ou há, mas os traídos esquecem a traição com a mesma rapidez com que os adúlteros esquecem seu juramento de jamais repeti-la, e volta a paz. Uma velha tradição do país – segundo os historiadores – é o duelo pela honra. Quando os desafetos se encontram para resolver tudo com espada ou pistola ninguém se lembra mais da causa do duelo, e apesar da tradição nenhum duelo jamais foi realizado em Amnésia. Pelo menos que alguém se lembre.

Os políticos em Amnésia são todos corruptos. Os escândalos se repetem mas as comissões parlamentares reunidas para investigá-los começam, invariavelmente, com seu presidente perguntando “Alguém se lembra por que estamos reunidos aqui?”. Como ninguém se lembra as comissões são desfeitas, até o escândalo seguinte, quando ocorre a mesma coisa. Já houve a sugestão de se formar as comissões antes dos escândalos, que são previsíveis, pois acontecem com a mesma regularidade com que são esquecidos. A sugestão foi aceita e logo esquecida. Há pouca renovação entre dirigentes e parlamentares amnesianos porque o público esquece o que eles fizeram e os reelege. Políticos que estão no poder há anos fazem campanha com o slogan “Finalmente uma cara nova” em todas as eleições e levam o voto do eleitor insatisfeito mesmo que não lembre bem com o quê. Leis são promulgadas, esquecidas, nunca exercidas e muitas vezes promulgadas de novo – e esquecidas de novo. Em Amnésia os computadores têm memória, mas ninguém se lembra pra que serve.

É bom viver no pequeno arquipélago de Amnésia, onde ninguém cobra dívidas, guarda rancor ou tem o que contar ao psicanalista, a não ser que invente. Os historiadores–romancistas providenciam as lembranças que ninguém tem. Se Amnésia se classificou para as finais da Copa – pelo menos tem quase certeza que se classificou, faz tanto tempo – e esqueceu de ir, por que não botar na história que foi e ganhou? Num país sem memória onde tudo é faz de conta, o passado pode ser o que a gente escolher

Luis Fernando Veríssimo

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Sobe a Serra, desvela outros sabores. Toca um som bom, me guia. Deixa aquelas teimosias para depois, esquece rios que ficaram ao norte. Ali quem parte são os barcos, teu porto seguro é em terra firme. Relaxa um pouco, te envolve mais, no casaco, no meu abraço. Daqui do banco da praça, as folhas perdem as forças, a cor,a vida, desprendem-se e chovem sobre nós, que olhamos, ao longe, o sol avermelhar o cume da igrejinha. Gargalha os transeuntes empacotados de cachecóis, sorri do meu nariz gélido e corado, da fumaça que nos sai da boca. Aproveita a vida, ela passa em um piscar de olhos e, como quem acaba um chocolate quente, esquenta o corpo da vida fria e resguarda a alma da inércia.

Quisk

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Long handwritten note, deep in your pocket
Words, how little they mean, when you’re a little too late
I stood right by the tracks, your face in a locket
Good girls, hopeful they’ll be and lonely will wait…

Taylor Swift

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Água do céu,
do mar, do véu
Inundou a cidade, o cais, o quarto.

Sobrevivente de um naufrágio
Enxugou o que podia,
mas os pés molhados e enrugados
ainda sentiam a maresia de sentimentos e fantasias.

Beatriz Gualberto - Quisk

(via quisk)

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Ela em geral se dava muitos bons conselhos (embora raramente os seguisse).

Alice no País das Maravilhas (via biblioteca-decitacoes)

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Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

A Insustentável Leveza do Ser (via tortura-e-tinta)

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MagicIn The Moonlight ( 2014 )

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga (via trechosdaliteratura)

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Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

Fernando Pessoa (via reorganizei)

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Passaram os ventos de agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas;
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.
Passaram os ventos de agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva -
sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.

Cecilia Meireles (via trechosdaliteratura)

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