Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda  (via oxigenio-dapalavra)

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pasargadeando:

Especial do Diario de Pernambuco feito em Homengem ao Professor Ariano Suassuna

Carta para Ariano,

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.

Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,
Matheus Nachtergaele

Carta do ator Matheus Nachtergaele para Ariano Suassuna.

(Link para a materia do Diario de Pernambuco, anterior ao falecimento do autor)

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deposito-de-tirinhas:

por Elvitines.
facebook.com/elvitines

Eu ando pelo mundo e saio procurando em cada esconderijo secreto alguma luz que ilumine meus olhos, que clareie minha visão e limpe essa minha vista embaçada, maltratada de tanto enxergar o errado, os abandonos, as tragédias desse mundo que chega a ser doentio. Eu conheço meus passos em qualquer que seja o caminho, eu me encanto com as paisagens e fotografo em minha mente toda a natureza, que por mais que os anos passem, e as folhas caíam, as árvores cresçam, continua a mesma, o azul é lindo, o mar é enorme, o vento é aconchegante, por um segundo eu penso que não tenho do que reclamar, mas esse segundo passa rápido, tão rápido que não tenho tempo de aproveitar. ” Eu ando pelo mundo, e meus amigos, cadê?” Creio eu que ainda tenho tempo de sonhar e viajar entre essas montanhas, há ruas que ainda tenho de encontrar, os dragões ainda podem existir?

Eduardo Alves, indeferindo. (via blues-dapiedade)

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Eu não recordo muito bem das primeiras palavras, dos primeiros passos e das primeiras alegrias, eu viajo em minha mente, saio do canto, encontro vestígios, pulo muros e as lembranças se vão, se perdem, sem eu querer, sem esforço algum. Vai chegar um momento em que eu não saberei mais como é o formato do seu rosto, não saberei em qual parte do teu corpo ficavam aqueles sinais que eu tanto gostava, não lembrarei dos seus lábios e da sua voz aguda que invadia meus ouvidos e me deixava aflito por horas. Eu tomo meu café de sempre, leio tentando encontrar alguma história diferente, um clichê mais bonito, como aquela comida horrível que você amava só pra ver aqueles pratos na mesa novamente, como se tudo estivesse no seu devido lugar, como se a nossa única preocupação fosse o passar do tempo, as horas e os minutos. Acontece, que o meu ponto de partida para tudo sempre foi você, sempre será você, eu não precisava viajar para encontrar o mais lindo paraíso, pois meu bem, não tinha paraíso mais lindo que aquele seu olhar, e até hoje eu me pergunto quem te tirou de mim.
Eduardo Alves, indeferindo.

Também é preciso observar as estrelas de vez em quando. Contar os astros, admirar a lua. Tudo, tudo para se sentir ainda mais vivo. É bom olhar para além do que é concreto, em todos os sentidos. Olhar além do que podemos alcançar com a ponta dos dedos. Se perder naquilo que só se toca com a mente. Infinito, é assim que me sinto diante do céu escuro. Melhor ainda é quando há alguém para olhar junto para o mesmo ponto e falar de tudo, rir do silêncio, apontar estrelas cadentes. Sonhar, ainda que acordados. Cobertos por uma manta negra e lotada de corpos celestes de hidrogênio e hélio. Átomos, nada mais do que átomos, como nós. Que não se criam, apenas se transformar e se recriam em corpos diferentes. Sim, somos pedaços de estrelas. Não há nada mais verdadeiro do que aquela história para crianças de que fulano não morreu, apenas virou estrela. É bonito, não? acreditar que sim. Nos faz fugir um pouco da realidade que nos suga o brilho e nos espreme o hidrogênio. Nos faz acreditar um pouco mais. Ontem mesmo fui me recarregar ao ar livre querendo ver um pouco mais do céu. De mãos dadas com o pedaço de estrela mais bonito que conheço, torci para que a luz do poste mais próximo se apagasse e pudéssemos ver um pouco mais de luz estelar. Você sabe, não é? Não enxergamos nem metade delas, as luzes terrenas ofuscam-nas. Uma pena, eu acho. O certo é que o poste apagou-se pouco depois e me deu uma visão maior daquilo que eu contemplava. É, as estrelas também ouvem o que não dizemos. É por isso que nos sentimos infinitos por baixo delas.

rio-doce  (via volatum)

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A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os rostos envoltos em sombras. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto que, sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que esse rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado.

Rubem Alves, no livro “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 37.   (via postumas)

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